quinta-feira, 29 de março de 2007

PROFISSÃO: PERIGO


Pra variar, estou enjuriada com a minha profissão. Claro, já estive mais, só que parece que me acostumei com as coisas erradas que eu vejo acontecerem. E é aí que mora o perigo. Quando eu me omito eu contribuo para a continuidade das mesmas coisas erradas que eu critico.

Bom, mas as coisas erradas: esse lance de progressão continuada, por exemplo, foi criado porque o índice de repetência e evasão escolar estava muito alto, o que provocava a exclusão do aluno da escola, e por extensão, da sociedade.

É bonitinho na teoria mas na prática, olha como a coisa é absurda: começaram a passar de ano todos os alunos, mesmo os que não tinham aprendido a ler e escrever na idade e séries correspondentes, porque, tadinhos ,os pobrezinhos vão ficar se sentindo excluídos e vão ficar traumatizados se não puderem acompanhar os colegas.

Resultado: alunos que chegam até o terceiro ano colegial sem saber ler e interpretar um texto; na escrita, confundindo "vaca" com "faca" e " e escrevendo "cebola" com "ç". Vão ficar traumatizados do mesmo jeito, coitados, com o mico que vão pagar ao preencher o formulário de emprego.

Eu mesma estou com dois alunos na 5a. série que não sabem ler e nem escrever NADA. Eu olho para esses dois lá e me sinto um lixo porque não tenho condições de atendê-los como eles precisariam ser atendidos. E o que eu faço? NADA. Afinal, são apenas dois alunos e eu preciso dar conta de mais 33, que dão muitíssimo trabalho, só faltam se pendurar no ventilador do teto. Isso numa sala minúscula. Sem falar que não me preparei na faculdade, claro, pra alfabetizar ninguém; fiz Letras, não Pedagogia. Mas me sinto tão culpada que vou até fazer um curso de professor alfabetizador, como o pescador que se sente culpado porque o mar estava bravo e ele não conseguiu pescar.

Mas Resumindo, o profissional esbarra na falta de condições de trabalho, nas dificílimas situações-problema em sala de aula, como essas e outras. Ele não consegue dar conta do recado, se sente culpado por isso, fica deprimido, começa a ficar doente, se afasta com licença médica, sendo portanto obrigado a faltar. Nisso chega o governo e colunistas de jornais elitistas como a Folha de SP dizendo que os professores, "descomprometidos com o seu dever", estão faltando demais ao trabalho. Diante dessa conclusão, o governo toma medidas urgentes e coersivas para evitar que isso aconteça: muda a política de licenças médicas, muda o sistema de falta-dia para somatória de faltas-aula, e outras belas mudanças.

Mas no principal, no buraco mais embaixo, ninguém tem coragem de enfiar o dedo - em nosso lindo sistema educacional, que permite que absurdos como a progressão continuada permaneçam em vigor. Isso porque eu não falei dos inúmeras mudanças que o governo entucha de cima para baixo na goela dos profissionais de educação , sem primeiro consultá-los; nas inúmeras vezes em que o professor é agredido por alunos na sala de aula, tanto verbalmente como às vezes fisicamente, e por aí vai.

E fecho com um típico dilema Tostines: é a excessiva falta de professores que provoca a má qualidade do sistema de ensino ou é má qualidade do sistema de ensino que provoca a falta excessiva dos professores?

Refletir não custa nada...

segunda-feira, 26 de março de 2007

BRILHA ONDE ESTIVER


E amanheci brilhando mais forte...


Acho que ainda morro de overdose de Teatro Mágico. Parece que eles têm o dom de traduzir em música e poesia exatamente o que estou sentindo em determinado momento. Agora mesmo, depois de ler um texto que me emocionou profundamente, não consigo pensar em nada pra escrever, só consigo me lembrar da letra da música que traduz exatamente aquilo que eu senti depois de fazer a leitura. Pra variar, letra do TM. A música é possível conferir nos meus vídeos do orkut, num clipe maravilhoso.



BRILHA ONDE ESTIVER


Não há de ser nada,
pois sei que a madrugada acaba, quando a lua se põe
O abraço de vampiro é o sorriso de um amigo e mais nada
Não há de ser nada, pois sei que a madrugada acaba, quando a lua se põe
A estrela que eu escolhi não cumpriu com o que eu pedi
e hoje não a encontrei
Pois caiu no mar, e se apagou
Se souber nadar, faça-me o favor
O milagre que esperei nunca me aconteceu
Quem sabe é só você
Pra trazer o que já é meu

Brilha onde estiver
Faz da lágrima o sangue que nos deixa de pé

domingo, 25 de março de 2007

“ Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior” (Pena - O Teatro Mágico)



Difícil descrever em palavras o que é um show do Teatro Mágico. São cinco meses de paixão pura e simples, daquelas que fazem o coração bater acelerado e a gente seguir o ente amado por onde quer que ele vá.
Amor ao primeiro show. Foi isso o que senti naquele outubro Dia das Crianças de 2006. Dia mais conveniente para voltar a ser criança não poderia existir. E foi assim.
Como eu me sentia antes de conhecer o TM? Basta dizer que umas duas semanas antes eu havia marcado uma consulta com um psiquiatra, porque estava me sentindo muito pior do que o verme do cocô do cavalo do bandido: sendo massacrada no meu trabalho, sofrendo de uma solidão e carência afetivas fora do comum, me achando a mais feia e vil das criaturas.
Não fui à consulta. Fui ao show do TM, no Parque Central de Santo André. Fomos minha irmã, meu cunhado e eu e encontramos lá a turma que havia nos convidado. Chegamos quando o show já havia começado. Estava tocando “Ana e o Mar” “por que a gente nunca sabe de quem vai gostar...” , música que fala sobre os amores pouco convencionais e de como a gente não tem controle sobre o amor.
Ficamos ainda desconfiados, ouvindo e gostando do que estávamos ouvindo, enquanto a galera se descabelava, cantando as letras das canções que vieram a seguir e nós nos admirando: “caramba, o povo sabe cantar todas as músicas e a gente nem sabia da existência desses caras de lugar nenhum “
Enquanto o show rolava, dei uma olhada ao redor. Uma chuva fina que de vez em quando caía, muita gente concentrada na frente do palco. Nós atrás. Centenas de casais do lado: heteros e homos. Várias pessoas fazendo apresentações de malabarismo. Rostos pintados, bolhas de sabão.
A juventude reunida, alegria estampada no rosto, pessoas se abraçando e se beijando o tempo todo. Cheiro de baseado no ar. Parecia um pedaço do Festival de Woodstock acontecendo ali. Só faltava todo mundo tirar a roupa, sair correndo pelado entregando flores para as pessoas.
Uma paz enorme percorreu o meu corpo. Eles começaram a tocar “O anjo mais velho”, e pessoas que não se conheciam se abraçavam e cantavam o refrão: “Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você”. Lágrimas de emoção que rolavam do rosto de algumas pessoas enquanto o Fernando dava uma pausa na música pra dizer: “esse é o momento de cada um olhar pro outro do lado e dizer aquilo que está sentindo, porque nós só temos esse instante para dizer o quanto o amamos, até porque o amanhã pode não existir mais. Então esse é momento de dizer: Eu te amo! Esse é o momento de abraçar o outro, esse é o momento de olhar nos olhos do outro e perguntar 'e aí, a gente tá junto ou não tá?' Esse é momento de mostrar o que sentimos...e... eu aproveito para apresentar agora as pessoas mais importantes desse show. E com vocês: Vocês!"
Naquele momento eu percebi que não estava diante de um show qualquer nem de uma banda qualquer. Depois que começou a tocar “Camarada d’água” eu tive certeza de que meus dias não seriam mais os mesmos. “Camarada, donde vem essa febre, nossa alegria breve por enquanto nos deixou; camarada, viva a vida mais leve, não deixe que ela escorregue, que te cause mais dor.”
Essa música passou a ser o meu hino. O símbolo musical do “no stress”, do desencane, porque não dá mesmo para viver a vida como se o peso do mundo estivesse nas suas costas. “Viver a vida mais leve” passou a ser o meu lema a partir de então.
Nunca vou me esquecer que no momento dessa música, chuva e sol se misturaram e um arco-íris enorme apareceu envolvendo o palco, e lá atrás da galera, um pôr-do-sol magnífico começou a dar o ar de sua graça. Mágico.
A apresentação que misturava teatro, música, circo e poesia. Tudo numa coisa só. E a gente que pensava que iria assistir somente a uma apresentação teatral...
Os bonecos trapezistas, Gabi Veiga e Roberval, fazendo as suas malabarices. Impossível tirar os olhos da Gabi enquanto ela se enroscava e deslizava no tecido como quem fazia amor com ele, ao som de “A fé solúvel”: “que o teu afeto me afetou é fato, agora faça-me o favor”; ou do Roberval, exibindo-se no vai-e-vem do trapézio, usando aquela roupa coladinha no corpo, deixando meninas e meninos com o olhar teso (e o resto também), ao som do refrão de “Pena”: “Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior”.
Saí desse show com uma camiseta e um CD debaixo do braço, e com um sentimento maravilhoso de que a vida valia a pena; sentimento que só aumentou ao longo dos meses e dos diversos outros shows em que começamos a ir, sendo de graça ou não.
Viver é bom demais! Teatro mágico é vida em forma de arte...definitivamente. É essa a grande mensagem que eles passam: a vida é um palco, nós somos os artistas que estamos representando papéis o tempo todo – no trabalho somos um personagem; em casa, outro; com os amigos, outro; no amor, outro. O TM mostra a vida nos seus shows, sim, com suas dores e delícias.
Bom, mas e a depressão que quase me pegou? Cadê? Nem me lembro mais. Hoje eu sinto que sei que sou um tanto bem maior, mesmo. A vida corre em minhas veias e rega o meu coração.

Site do TM: http://www.oteatromagico.mus.br/


PS.: Mal posso esperar pelo show de hoje à noite...

sábado, 24 de março de 2007




A CARONA

Ao seu lado no banco do passageiro, eu sentia que alguma coisa estava diferente. Dirigia com certo nervosismo. De vez em quando olhava de canto de olho. Rapidamente. Sua mão direita no câmbio, dedos longos que eu tanto admirava, trocava as marchas de forma quase frenética. Estranho.

Eu fingia não perceber, olhava quase distraidamente o caminho de todos os dias lá fora - os mesmos anônimos passantes, os mesmos anônimos veículos trafegando, o cheiro da poluição, sempre aos som de uma mpb no rádio do carro.

Um erro na mudança da marcha, o barulho engasgado do câmbio e eu observava o aumento do seu suposto nervosismo. Nenhuma palavra durante o trajeto, apenas um comentário sobre o trânsito, pesado àquela hora de pico. Sinal vermelho, verde, uma arrancada – pouco usual conhecendo seu jeito cuidadoso de dirigir.

Ao passar por uma curva, novo erro na troca de marcha. Não, engano meu! Começa a diminuir a marcha! Quinta, quarta, terceira. Seta que se liga. E coração que dispara. Sua mão direita começa a tremer mais ainda e o seu olhar nervoso a encontrar o meu olhar assustado com mais freqüência.

Fechou o carro que vinha ao lado com a mudança brusca de pista. Motorista do outro carro que buzina e xinga.

Mas já não havia mais ninguém ao nosso redor...

O carro entra por uma porta de garagem familiar, porque passamos todos os dias em frente. Quando paramos ao lado do guichê e a voz por trás do vidro fumê pergunta: “qual quarto, por favor?” , me dou conta de onde estamos. Aquilo, decididamente, não podia estar acontecendo.

Ou podia?

Antes mesmo que eu pudesse protestar ou perguntar alguma coisa, lançou um olhar desta vez firme e longo, o qual não pude deixar de retribuir, magneticamente.

De impacto, dirigiu-me uma única frase:

- Eu sei que você quer o mesmo que eu!

Não, aquela definitivamente não seria uma carona como as outras...

(Patricia – Outubro de 2005)

quarta-feira, 21 de março de 2007

Tô sentindo um nó no peito, como se alguma coisa estivesse me faltando. Como se eu procurasse alguma coisa em todos os cantos que eu olho.
Daqui a pouco vou entrar no meu carro e percorrer as ruas em direção ao meu trabalho, e os buracos nelas vão me lembrar que algo está faltando. Ironicamente.
O cigarro que eu vou fumar mais tarde vai tentar preencher o vazio que tenho por dentro com fumaça de nicotina. Em vão.
Quando entrar na sala de aula e for fazer a chamada, os alunos que faltarem vão me lembrar de que algo está me faltando também. E não adiantará pedir silêncio para os alunos, porque os gritos não virão deles. Virão de dentro de mim.
Quando chegar em casa e todo mundo me olhar como se eu ainda me sentisse a mesma, novamente isso vai me lembrar que existe uma ausência gritando dentro de mim.
Uma ausência presente.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Vira e mexe eu encontro textos e poemas que usam os pronomes pessoais do caso reto, além de brincadeiras poéticas com a conjugação de verbos em sua construção. Existem textos supercriativos que merecem mesmo serem lidos e reverenciados aqui.
O primeiro que eu quero colocar aqui é do Luis Fernando Veríssimo: "Tu e eu", escrito no estilo cômico que é marca registrada desse maravilhoso escritor.


Tu e eu

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça e a sabedoria
de só saber crescer até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa- que não sei qual é!
És de outra pipa e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães o mais leve.
És vidrada no Lobão
eu sou mais albinônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.


És suculenta e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.


És colorida,um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.


Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.
(L. F. Veríssimo - "Comédias da vida privada")


Outro poema que segue a mesma linha, mas que apresenta um tom de protesto, é "conjugação", de Afonso Romano de Sant'ana:
Conjugação

Eu falo tu ouves ele cala.
Eu procuro tu indagas ele esconde.
Eu planto tu adubas ele colhe.
Eu ajunto tu conservas ele rouba.
Eu defendo tu combates ele entrega.
Eu canto tu calas ele vaia.
Eu escrevo tu me lês ele apaga.
(Afonso Romano de Sant'ana - Coleção "Poesia Falada")

e, por último, a letra de uma canção de Gilberto Gil, " O som da pessoa" , genial, e que traz uma mensagem positiva em meio ao uso da aliteração:

O som da pessoa
(Gilberto Gil e Bené Fonteles)

A primeira pessoa soa
como eu sou.
A segunda pessoa soa
como tu és.
A terceira pessoa soa
como ele e ela também.
Qualquer pessoa soa .
Toda pessoa boa soa bem .

Até eu resolvi entrar na onda dos poemas com pronomes do caso reto e criei um, simples e curto, e que nem pode ser comparado ao desses grandes mestres homenageados acima. Mas considere, meu poeminha tem lá a sua forcinha poética:

Eu e você,
Você e eu.
Casca dura de quebrar,
laços que não desatam facilmente:
Nós.


E viva a poesia!!

domingo, 18 de março de 2007

Saudades da USP

Ando pensando muito na USP ultimamente e em tudo o que vivi lá. Uma das melhores épocas da minha vida, sem sombra de dúvida. Estudar na USP foi um marco pra mim. Impossível continuar sendo o mesmo ser humano depois de passar por lá.
Aprendi tanta coisa lá que fica difícil dizer o que foi mais importante. Estudei, trabalhei e morei dentro do campus, e em cada espaço ocupado coisas novas foram acontecendo a cada dia. Mas acho que acima de tudo aprendi a respeitar e a conviver com todos os tipos de pessoas lá dentro, principalmente a comunidade gay. A USP é provavelmente o lugar que comporta o maior número de gays e lésbicas por metro quadrado no Brasil. Assumidos e enrustidos. Aprendi que nem todo gay é igual, como a TV muitas vezes cansou de mostrar através dos estereótipos afeminados e masculinizados demais.
Aprendi a conviver pacificamente com pessoas que não acreditavam na existência de Deus, o que é bem comum num ambiente em que a Ciência reina absoluta. Eram pessoas que defendiam teorias filosóficas para provar que Deus é uma fraude da humanidade e uma invenção das religiões, para talvez confortar os nossos corações da angústia de não saber o que acontece depois da morte.
Aprendi a apreciar e entender a poesia de grandes mestres como Chico Buarque, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e outros; a entender e amar mestres da ficção como João Guimarães Rosa, Machado de Assis, José Lins do Rêgo.
Me deliciei com as viagens literárias das aulas do Alfredo Bosi e do Alcides Villaça. Me lembro que o Villaça fumava feito uma chaminé dentro da sala de aula, sem cerimônia nenhuma. Chegava a ser surreal ver um professor fumando daquele jeito na frente de mais de cem alunos. O Bosi começava a aula falando de Oswald de Andrade e terminava na literatura do Brasil-colônia, do padre José de Anchieta, mas nunca perdia a linha do raciocínio. Me lembro dele cochilando no meio da apresentação de um grupo de seminário. Pescava legal. Só que o impressionante é que depois ele fazia os comentários direitinho sobre as apresentações dos grupos, sem se perder do tema de nenhum. Mas que parecia que ele estava dormindo, isso parecia.
Me entediei com as aulas de lingüistica. Era a matéria na facul que mais se aproximava das exatas. Talvez por isso eu não gostasse principalmente das aulas de sintaxe.
Aprendi a gostar de cinema latino através do curso de espanhol, cuja língua eu aprendi a falar e escrever bem mal, só pro gasto mesmo. Lembro bem da minha professora de espanhol mais amada, Maite Celada. Argentina. Era possível sentir o amor pelo magistério transbordando dos seus olhos.
Ah! As aulas de Latim no primeiro ano. As aulas daquela professora já idosa, Ingeborg (Não lembro se é assim que se escreve o nome dela). A gente carinhosamante a chamava de Ing. Ela era tradicionalíssima, mas eu adorava as aulas dela. Logo ficou doente e foi substituída pela Elaine, fanática torcedora do Palmeiras, ótima professora e amiga de todos os alunos.
O Nea (Núcleo de Educação de Adultos), onde trabalhei por três anos e meio. Posso dizer que foi ali que o meu caminho profissional no magistério começou a ser traçado. Comecei ali mesmo a aprender como um bom professor deve ser. E como não deve ser. Um grupo de professores mais do que unido pro que desse e viesse. Foi lá também que eu conheci pessoas especialíssimas, das quais conservo a amizade até hoje.
Finalmente, o Crusp (Conjunto Residencial da USP), onde morei por três anos e meio. Que saudade das noites conversando com o Charles, a Ghis e a Aninha; das risadas e dos choros; das crises estéricas de TPM da Ghis, que chegou a quebrar o interfone do apartamento porque não agüentava mais ouvi-lo tocar; das aulas de Latim nas noites de terça em que nos reuníamos o Charles, a Roberta e eu para estudarmos as difíceis declinações das palavras latinas; das visitas que às vezes o Gabriel "Glitter" fazia ao nosso ap; me lembro do jantar que ele preparou lá e que no momento em que ia ser servido, apareceu uma barata voadora enorme no meio da sala e todo mundo saiu correndo. Perdi até o apetite nesse dia. Me lembro daquela festa de improviso que a gente fez no apartamento, em que eu me entupi de caipirinha e no outro dia tive a maior ressaca da minha vida até hoje; e da Ghis, "alegre", dançando o "Ring ring" do ABBA no meio da sala.
Foram muitos bons momentos. Sei que vou guardar todos no meu coração, mas é preciso viver o presente. Ah, o presente...

sábado, 17 de março de 2007


Depois de sofrer por quase dois anos exercendo o magistério na rede pública de ensino, resolvi que esse ano vou desencanar. Repito: DE-SEN-CA-NAR. No sentido de adotar a política do "no stress", do que-se-dane-porque-eu-também-não-posso-resolver-os-problemas-do-planeta-terra. É isso. Liguei o botãozinho do foda-se no volume mais alto.

Claro, vou procurar fazer o melhor que eu puder no meu trabalho, mas não mais com aquela ilusão de que vou conseguir fazer milagre. Tenho que tomar essa atitude por uma questão de saúde mental.


Minha mãe hoje veio me falar pra tomar cuidado com as coisas que eu deixo largadas no meu quarto, porque vira e mexe o meu pai tá procurando alguma coisa por lá. Ela disse pra eu tomar cuidado pra que ele não encontre lá coisas que ele não quer ver. Acho que ela se referia aos cigarros que eu ando fumando. Eu só respondi pra ela que as pessoas não são sempre do jeito que nós gostaríamos que elas fossem. Cada um tem um jeito diferente de ser e de viver, por mais que esse jeito não seja agradável.

Isso me incomodou um pouco e fez com que eu começasse a alimentar ainda mais a vontade de ter o meu próprio canto pra morar, onde eu pudesse deixar as minhas coisas "proibidas" em qualquer lugar sem que alguém mexesse e me reprovasse.

Não que eu não goste de morar com os pais. Morei a vida inteira. O conforto de não ter que me preocupar com tarefas domésticas, a comida da mamãe, o carinho da mãe e a proteção e o conselho do pai. Tudo isso é bom. Mas o peso da idade me incomoda agora. Virei uma "adultescente". É hora de começar a cortar o cordão umbilical.
Opa! Não posso deixar de registrar isso. O Teatro Mágico apareceu numa reportagem na globo, no jornal hoje. Fizeram uma bela de uma reportagem falando de como o TM faz sucesso sem precisar da mídia, lotando shows e vendendo cds só pela propaganda boca-a-boca; e de como o público interage de maneira apaixonada com os músicos. Até que a globo conseguiu pintar um retrato legal da trupe. Mostrou a galera com a cara pintada, pulando e cantando o refrão de "o anjo mais velho": "Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você!" Quase tive um orgasmo. A globo mostrou o show que o TM fez em fevereiro no Centro Cultural Vergueiro, show em que eu queria ter ido, meu Deus! Mas só de imaginar em ficar seis horas esperando para ver se conseguiria comprar um ingresso, me deu uma grande preguiça. Mas ver a galera gritando, cantando e chorando me deixou com a maior saudade de ir ao show de novo. Não vejo a hora de que chegue domingo que vem pra eu vê-los novamente e exorcisar os meus demônios interiores pulando e cantando.
Sobre o TM aparecer na Globo, apesar de achar que se trata do início do reconhecimento de um ótimo trabalho feito por eles, ainda fico meio com o pé atrás. Eles estão a caminho da consagração, disso não há dúvida, mas tenho medo de que se deixem corromper pelas tentações da fama e traiam os seus ideais. Espero que eles fiquem famosos sim, que sejam reconhecidos, mas que tomem uma postura firme diante das exigências que a grande mídia sempre impõe às grandes estrelas. Seria legal se eles adotassem uma postura parecida com a dos Racionais MCs, que se tornaram tremendamente famosos pelo Brasil a fora mas que não se venderam por conta disso.
Comercial
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

pode vir de dois de três de quatro!
eu não to aqui pagando o pato!
sem salto... sensato,num ato falho,
cê resolveu sair do armário e trocar o figurino
o cara que era do contrário agora é só no sapatinho!
e me aparece na televisão!
segurando uma latinha na mão
me dizendo que o milagre da transformação
é primavera virar verão!
nã nã não! pra mim não
nã nã não! pra mim não
ou é o trono!ou é o inferno!
ou é o trono!ou é o inferno!
então: Qual é? a atitude que cê toma?
Qual é? porque a cerveja eu já sei!
o meu skate não cabe num anúncio de refrigerante
a paz que eu busco não cabe num refrigerante
a minha alma não cabe num anúncio de refrigerante
o meu anúncio não cabe na embalagem de refrigerante
porque!!todo mundo amarela uma hora
todo mundo uma hora amarela
todo mundo amarela uma hora
todo mundo uma hora amarela
PS: espero que eles não amarelem... senão a chegada ao trono vai virar um inferno.

sexta-feira, 16 de março de 2007

A minha teoria (ou pseudo-teoria) sobre o que é o amor

O senso comum diz que quando um ser humano passa a aceitar o outro como é, com seus defeitos e qualidades, isso é que é o amor.
Continuo achando que pra manter vivo um relacionamento é preciso que haja pelo menos um respingo de paixão, apesar de não existir paixão que enxergue defeitos.
Realmente ajuda muito quando você consegue aceitar as coisas que você não gosta no outro. Fico imaginando a situação mais ou menos assim, por exemplo: o cara gosta de assoar o nariz fazendo aquele barulho de peido do tipo BRRRRRáulio na sua frente e na frente de quem quer que seja e você dá aquela olhadinha pro lado com aquele sorriso amarelo. Mesmo assim, quando o sujeito te olha ainda cutucando o nariz, você encontra coragem de sorrir ternamente pra ele e lhe dar um beijo, chamando-o de "meu porquinho" (ou minha porquinha, dependendo da situação).
É claro que eu pintei uma caricatura mostrando esse exemplo. Afinal, existem certos defeitos que são imperdoáveis mesmo. E você, estando com o (a) companheiro (a) vai passar a vida inteira tentando consertar as coisas que você não gosta no outro. (Admita isso!!)
Acabo de ter um "insight" neste momento. Talvez o amor seja isso mesmo: passar a vida inteira do lado de uma pessoa tentando consertar os defeitos dela. Talvez existam separações e divórcios porque as pessoas se cansam de ficar tentando e vão procurar outros companheiros(as) cujos defeitos sejam mais fáceis de consertar.
Se fóssemos levar a sério essa minha teoria, a conclusão seria clara: desmentíriamos mais uma idéia do senso comum que diz que "o amor é cego". Seria bem o contrário: ele enxerga muito bem; tão bem que tenta a todo custo transformar aquilo que vê em algo agradável aos olhos.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Bota-dentro

Depois de escrever durante pelo menos 17 anos em agendas furtadas e cadernos de arame, resolvi entrar para a era dos blogs, e tornar públicas as letras que corroem o meu cérebro ansioso. Convulsivamente.
Convulsiva mente é a minha. Buscando entender esse mundo "gouche" que nos cerca e tentando se enquadrar nele da maneira menos traumática possível. Este espaço servirá para eu vomitar as impressões, as opiniões sobre esse mundo torto. Também servirá para falar sobre os passos mais importantes dos meus dias, e por vezes, dos meus arroubos poéticos.
"Sou poeta menor, perdoai!" No sentido literal da palavra "menor". Então , não me critique se eu por acaso soltar um verso vagabundo. Afinal, não sou nenhuma Cecília Meireles.
Quem eu sou? Cada dia descubro um pouquinho. E me surpreendo mais e mais com o que descubro. Sou uma incógnita, como disse uma amiga minha. Até pra mim mesma.

" Às vezes sei que me sei
Mas quando penso que me sei
nem sei...

Às vezes ser é não ser...
Eis a questão!"

(Patricia - 22/11/06)