quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Sobre bichos e gente


A semana corrida, aborrecimentos, stress, cansaço:"Caramba, quero que venha logo o fim de semana. Vou poder ir ver a pessoa que amo e... abraçar o Bóris bem apertado. Isso era o que eu pensava quando os dias me pareciam insuportáveis.

Na solidão coletiva em que vivemos, em que cada vez as pessoas demonstram mais o azedume dos seus corações do que aquilo que há de melhor em si, nos momentos em que a gente não encontra conforto pra nossa angústia diária, muitas vezes a gente encontra o afeto que nos falta no carinho dos nossos bichos de estimação, gato, cahorro, sei lá. Quem tem, sabe do que tô falando. Eles nos amam com a pureza que é própria da personalidade inocente deles. Não nos cobram, não reclamam, não guardam rancor quando lhes damos bronca, e nos dão o conforto que muitas vezes os da nossa mesma espécie nos negam.

E quando eles se vão, o aperto no peito é praticamente o mesmo que sentimos quando algum ente querido humano se vai.

Há pessoas que passam pela vida e saem dela sem acrescentar nada de bom. E há bichos que passam pela vida e nos deixam lições: amor, pra ser eterno, tem que ser incondicional.

Saudades do meu Bóris Gatão...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008


Desta vez é a falta de tempo que tem me impedido de aparecer por aqui. O curso de Nutrição tem me tomado as manhãs e me deixado o dia inteiro com sono. Também, desde que comecei a dar aulas que trabalho somente à tarde, de maneira que podia dormir até umas nove, dez horas, por aí. Me acostumar com esse novo ritmo de vida vai ser difícil, mas tô encarando tudo como um desafio.


Tem tanta coisa que eu queria escrever, tantos assuntos, e o tempo anda escorregadio.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Enfim, é isso

É, realmente dizer a verdade não é fácil. Mas o problema nem é dizer a verdade. O problema é quando a gente acaba dizendo mais do que queria dizer, por conta do nervosismo do momento.
Acho que é por isso que muitas vezes eu prefiro ficar na minha. No meu caso, as chances de as palavras desabarem como uma grande avalanche realmente são muito grandes.
Mas é possível aprender sempre com tudo. Espero que todos, inclusive eu, tenhamos aprendido alguma coisa com tudo isso. Eu, por meu lado, aprendi que minha calma é aparente. Aprendi também que é preciso saber a hora de parar e que ser humilde e pedir desculpas (por aquilo que se disse a mais) não é um ato de fraqueza, mas de caráter.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ser professora


Não sei se já comentei isso aqui, mas ser professora também é bom. Trabalho nos turnos da tarde e da noite na escola e sempre costumo dizer que termino o turno da tarde com raiva e, o da noite, sempre com alegria.

Ontem recebi uma homenagam inusitada de um dos meus alunos da quinta série noturna, um senhor de 73 anos. Já falei dele aqui quando postei sobre o discurso de orador que ele fez no dia da formatura de sua turma na quarta série. Comentei também que ele aprendeu a ler e a escrever já depois de idoso. Seu discurso foi um dos mais sábios que já ouvi na vida, pois nele dizia o quanto é importante que se aprenda a ler e escrever para não correr mais risco de, por ignorância, ser enganado pelos outros.

Esse senhor também gosta de escrever poemas. São registros feitos com uma simplicidade muito grande, nada de grandezas literárias, mas também lembro que postei aqui que todo mundo tem um pouco de poeta dentro de si, mesmo que não entenda muito de técnicas de poesia. E ele, embora não domine a técnica e ainda tropece na ortografia e na pontuação, possui o sentimento poético, que a meu ver é o primeiro grande ingrediente para uma pessoa tornar-se poeta ou poetisa de verdade.

Pois bem, ontem ele me apareceu com um poema escrito em minha homenagem. Confesso que fiquei meio sem ação. Pediu para lê-lo em voz alta para o restante da turma. Cedi um espaço antes do fim da aula. O poema, vou reproduzi-lo tal como ele o escreveu:


" Vou fazer uma mensagem a uma jovem sedutora ela é encantadora uma jovem promissora ela é nossa sucessora ela é uma educadora e a nossa professora ela é eficiente com heroísmo e talento uma jovem inteligente e é muito competente na escola que dá aula sempre está presente, seu trabalho não esgota escreve com a mão canhota com a minha rapidez tem o traço de princesa em um castelo de areia parece uma sereia em noite de lua cheia uma jovem preparada não sei se ela é casada, solteira ou separada, só sei que ela é muito educada ela está de parabéns jovem que não tem malícia o nome dela é Patricia promete ser sobre missa a família que ela tem." JC


Meu P.S.: onde se lê "sobre missa", leia-se "submissa".


Às vezes a gente reclama da falta de reconhecimento da nossa profissão, mas quando falamos disso, normalmente pensamos no salário, no plano de carreira, na falta de tempo para formação.

Só que, no fundo, são pequenas atitudes de coração, como essa do meu aluno, que fazem com a gente perceba que o trabalho feito em sala faz a diferença para alguém de maneira positiva.

Tô tão acostumada a ser desrespeitada, humilhada por vezes dentro da sala de aula, que se torna difícil enxergar que o meu trabalho tem importância para alguém em algum lugar daquelas quatro paredes.

Ao mesmo tempo, bate um sentimento de culpa por nem sempre corresponder às expectativas daqueles que esperavam algo de bom de mim.

Ser professor às vezes tem cada surpresa... Graças a Deus.

Mais uma do senhor Kanitz


Por que é tão difícil dizer na lata aquilo que pensamos?


"Como Combater a Arrogância


Muitos leitores perguntaram ao longo deste mês qual era a minha agenda oculta. Meus textos são normalmente transparentes, sou pró-família, pró-futura geração, pró-eficiência, pró-solidariedade humana e responsabilidade social. Mas, como todo escritor, tenho também uma agenda mais ou menos oculta. Sempre que posso dou uma alfinetada nas pessoas e nos profissionais arrogantes e prepotentes. É a reclamação mais freqüente de quem já discutiu com esses tecnocratas. Uma vez no governo, parece que ninguém mais ouve. Eles confundem ser donos do poder com ser donos da verdade. Fora do governo, continuam não ouvindo e, quando escrevem em revistas e jornais, é sempre o mesmo artigo: "Juro que eu nunca errei". Toda nossa educação "superior" é voltada para falar coisas "certas". Você só entra na faculdade se tiver as respostas "certas". Você só passa de ano se estiver "certo".
Aqueles com mestrado e Ph.D. acham equivocadamente que foram ungidos pela certeza infalível. Nosso sistema de ensino valoriza mais a certeza do que a dúvida. Valoriza mais os arrogantes do que os cientificamente humildes. É fácil identificar essas pessoas, elas jamais colocam seus e-mails ou endereços nos artigos e livros que escrevem. Para quê, se vocês, leitores, nada têm a contribuir? Elas nunca leram Karl Popper a mostrar que não existem verdades absolutas, somente hipóteses ainda não refutadas por alguém. Pessoalmente, não leio artigos de quem omite seu endereço ou e-mail. É perda de tempo. Se elas não ouvem ninguém, por que eu deveria ouvi-las ou lê-las? Todos nós deveríamos solenemente ignorá-las, até elas se tornarem mais humildes e menos arrogantes. Como não divulgam seus e-mails, ninguém contesta a prepotência de certas coisas que escrevem, o que aumenta ainda mais a arrogância dessas pessoas.
O ensino inglês e o americano privilegiam o feedback, termo que ainda não criamos em nossa língua – a obrigação de reagir à arrogância e à prepotência dos outros. Alguém precisa traduzir bullshit, que é dito na lata, sempre que alguém fala uma grande asneira. Recentemente, cinco famosos economistas brasileiros escreveram artigos diferentes, repetindo uma insolente frase de Keynes, afirmando que todos os empresários são "imbuídos de espírito animal". Se esse insulto fosse usado para caracterizar mulheres, todos estariam hoje execrados ou banidos. "A proverbial arrogância de Larry Summers", escreveu na semana passada Claudio de Moura e Castro, "lhe custou a presidência de Harvard." Lá, os arrogantes são banidos, mas aqui ninguém nem sequer os contesta. Especialmente quando atacam o inimigo público número 1 deste país, o empreendedor e o pequeno empresário.
Minha mãe era inglesa, e dela aprendi a sempre dizer o que penso das pessoas com quem convivo, o que me causa enormes problemas sociais. Quantas vezes já fui repreendido por falar o que penso delas? "Não se faz isso no Brasil, você magoa as pessoas." Existe uma cordialidade brasileira que supõe que preferimos nunca ser corrigidos de nossa ignorância por amigos e parentes, e continuar ignorantes para sempre. Constantemente recebo e-mails elogiando minha "coragem", quando, para mim, dizer a verdade era uma obrigação de cidadania, um ato de amor, e não de discórdia.
O que me convenceu a mudar e até a mentir polidamente foi uma frase que espelha bem nossa cultura: "Você prefere ter sempre a razão ou prefere ter sempre amigos?". Nem passa pela nossa cabeça que é possível criar uma sociedade em que se possa ter ambos. Meu único consolo é que os arrogantes e prepotentes deste país, pelo jeito, não têm amigos. Amigos que tenham a coragem de dizer a verdade, em vez dos puxa-sacos e acólitos que os rodeiam. Para melhorar este país, precisamos de pessoas que usem sua privilegiada inteligência para ouvir aqueles que as cercam, e não para enunciar as teorias que aprenderam na Sorbonne, Harvard ou Yale. Se você conhece um arrogante e prepotente, volte a ser seu amigo. Diga simplesmente o que você pensa, sem medo da inevitável retaliação. Um dia ele vai lhe agradecer."


Stephen Kanitz é administrador (http://www.kanitz.com/)
Revista Veja, Editora Abril, edição 2036, ano 40, nº 47, 28 de novembro de 2007, página 22

Meu P.S.: A verdade é que aprendi muito com aqueles e aquelas que não tiveram receio algum de dizer o que pensavam de mim. Muitos desses são meus grandes amigos hoje. Mas devo confessar, a vida inteira me acostumei a sempre ouvir as verdades na lata e quase nunca pronunciá-las a alguém que estivesse precisando. Talvez tenha chegado o momento de fazê-lo. Não sei como será, mas também é outro risco que terei de correr. Definitivamente, viver é correr riscos.

De volta


Andei sumida, mas a verdade é que não escrevi mais nada por pura preguiça mesmo. O recesso passou, as aulas recomeçaram e eu tomei uma decisão meio radical: me inscrevi num curso técnico de Nutrição pelo Senac. Um ano e meio de curso.

As aulas começarão agora dia 11 e eu ainda não sei o que pensar dessa decisão. Levei em consideração na escolha o fato de que o mercado de trablho em Nutrição é vasto. Escolhi o Senac porque além de ser umas instituição reconhecida, ela tem também muitos contatos com empresas para as quais encaminha os estudantes que se destacam no curso.


Radical, mas a matrícula no curso mostra que finalmente eu tomei a decisão de mudar, ou de pelo menos ter a opção de mudar. Até porque neste momento, até os outros com os quais convivo percebem a minha insatisfação com a profissão.


Engraçado é que no momento de fazer a matrícula, me peguei numa espécie de conflito interno: "Por que preciso mudar de profissão, oras?" - foi o que pensei - "tenho uma emprego estável, do qual não serei demitida a não ser que cometa um erro muito grave (do tipo botar fogo na escola ou esganar uma aluno na sala de aula), ganho até bem, por que querer mudar?". O conflito bateu forte. Me pareceu aquele medo de quem tá muito acomodado e seguro dentro do emprego que apesar de muitas vezes detestar, é o que paga as contas. Querer sair do certo-odioso para ir atrás do incerto.


Mas, como eu disse, pelo menos tomei a decisão de tentar outra coisa. E nutrição era até uma área que eu tinha curiosidade de conhecer, de estudar. Corro o risco de entrar no curso e não gostar? É um risco que vou ter que correr, e corro sem medo.

Viver é correr riscos, mesmo.